A fecunda relação entre o Espírito e a Palavra
Publicado em 12 de setembro de 2026
“Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo.” (Ez 2, 1-2)
Preparando-me para iniciar o mês de setembro, fui visitar o livro de Ezequiel à procura da passagem onde Deus apresenta um rolo ao Profeta para que ele o coma e se sacie da palavra nele escrita, levando a sua mensagem à Casa de Israel (Ez 3,1-3). Não sabia exatamente onde se encontrava e comecei a percorrer o livro a partir do primeiro capítulo. Fui então detida pelos primeiros versículos do capítulo 2 e não consegui mais ir adiante, pois fiquei impressionada com a força daquela palavra: “… Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo” (2,2).
Fiquei pensando na força do Espírito que nos coloca de pé, em prontidão para ouvir a Palavra d’Aquele que fala conosco. O estar de pé é uma postura corporal muito significativa: sinaliza a pré-disposição para a ação, assim como o estado de atenção. É o próprio Espírito que nos pré-dispõe à escuta da Palavra.
E isto me faz re-cordar (trazer de novo ao coração) do episódio da “pesca milagrosa” (Lc 5,1-11). Estando Jesus a ensinar às margens do lago de Generasé as multidões se apresentaram para ouvir a Palavra de Deus. Quando, em certo momento, Jesus convida Pedro a lançar as redes em águas mais profundas, mesmo tendo já experimentado durante “toda a noite” que naquele mar não havia peixe, diz a Jesus: “em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. E nós já sabemos o que resulta daí.
A multidão se comprime para ouvir a Palavra, mas enquanto não dermos conta de, tocados pelo Espírito, aderir e responder pessoalmente a esta Palavra, seremos seres sem identidade = multidão.
Do meio da multidão sem rosto, é individualizado alguém que tem um nome: Simão. E este indivíduo dialoga com a Palavra feita Carne, tornando-se sujeito naquele diálogo: “Em atenção à tua Palavra vou lançar as redes”. E mais. À medida em que o Espírito cria em nós condições de “ficar de pé” diante d’Aquele que fala conosco, ouvindo sua Palavra, esta mesma Palavra vai nos moldando a si, conferindo-nos nova identidade: “Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas — que quer dizer Pedra” (Jo 1,42)… “De hoje em diante você será pescador de homens” (Lc 5,10).
À medida que vamos integrando esta nova identidade conferida a partir do encontro com a Palavra feita Carne, vamos sendo interpelados a assumir as suas posturas e atitudes, relacionando-nos com a Palavra e propagando-a segundo o seu estilo. E nós bem sabemos que, na vida de Jesus, todo anúncio da Palavra nasce a partir da fecundidade do Espírito. Ainda é Lucas, o “Evangelista do Espírito”, que nos recorda que após o Batismo “Jesus volta para a Galiléia com a força do Espírito” (Lc 4,14), e, a partir desta força vamos percebendo o que este dinamismo do Espírito o impele a realizar: inicia o ensino da Palavra na Sinagoga de Nazaré e apresenta o seu Projeto (Lc 4,16ss); anuncia e denuncia, provocando espanto e admiração nos ouvintes (Lc 4,22ss); o Espírito que habitava Jesus libertava as pessoas possuídas por espíritos de “demônios impuros” (Lc 3,3ss).
Assim sendo, que o Espírito que movia Jesus, que é o mesmo que foi enviado a nós por ele e pelo Pai, nos ajude a ouvir, acolher, transmitir, com a mesma força de Jesus a “Palavra d’Aquele que fala conosco”. Que esta Palavra nos transforme e nos ajude a ser instrumentos de transformação da realidade. Amém.
Ir. Andréa dos Santos Lourenço — Discípulas de Jesus Eucarístico