“O grande coração de Dom Raffaello foi um sacrário castíssimo, no qual, com sabedoria e devoção quase angelical, a Eucaristia era por ele adorada. Procurava o sacrário como o sedento procura a água, como a criança procura a mãe.” Mons. Ângelo Mazzarone
Dom Raffaello Delle Nocche
Bispo de Tricarico por 38 anos e fundador das Irmãs Discípulas de Jesus Eucarístico. 1877 – 1960.
De onde ele veio
Raffaello Delle Nocche nasceu em 19 de abril de 1877, em Marano, perto de Nápoles, no seio de uma família de sólidos princípios cristãos. Cresceu envolvido em uma atmosfera de ricos valores humanos e religiosos, sob o acompanhamento do pai Vincenzo e da mãe Carmela. O seu lar era como uma pequena Igreja doméstica, onde se fazia a experiência do amor de Deus e do próximo.
O casal gerou ainda duas filhas: Anna, que morreu ainda muito jovem em um mosteiro, em Aversa, e Marietta — esta seria, mais tarde, o seu braço direito em Tricarico.
Formação religiosa
Desde a adolescência, era natural para Raffaello aproximar-se frequentemente da Eucaristia e dirigir-se como filho a Nossa Senhora. No campo dos estudos sempre se saiu muito bem, dotado que era para as ciências exatas e biológicas.
Em 1894 entrou no Seminário Diocesano de Nápoles, vencendo as resistências do pai, que sonhava para ele outros planos. Terminado o curso de Teologia com brilhante proveito, foi ordenado sacerdote em 1º de julho de 1901, com grande alegria de todos os familiares — particularmente de sua mãe, que lhe lembrava sempre que deveria servir aos fiéis com muita humildade.
De 1901 a 1915 trabalhou como secretário de Dom Gennaro Trama, bispo de Lecce. Em 1915 foi nomeado reitor do Seminário de Molfetta, num contexto difícil, marcado pelo recrutamento de sacerdotes e seminaristas para a Guerra.
Bispo de Tricarico
Em 11 de fevereiro de 1922, o padre Raffaello foi nomeado bispo de Tricarico, uma pequena cidade do sul da Itália, na região da Basilicata. Em 25 de julho do mesmo ano celebrou-se a sua ordenação episcopal.
Em poucos dias deu-se conta da situação da diocese e dos desafios da sua missão. Escreveu numa carta:
“O povo é bom e simples. Os costumes são muito primitivos: é gente que trabalha sem qualquer descanso, e privada de todo conforto que, para as pessoas das nossas cidades, já é normal.”
Em toda parte encontrava-se a ameaçadora miséria, a incerteza e a ansiedade pelo amanhã. A situação do clero era de abandono, assim como a vivência religiosa dos fiéis. Por isso, com incansável zelo, dedicou-se à formação dos sacerdotes.
Esta foi a diocese que assumiu e à qual foi fiel até a morte. Aceitou a difícil missão com humildade e com a confiança de quem muito esperava na Providência. Desde o início a diocese passou a fazer parte da sua vida:
“Desde então pensei em vós; rezei sempre por vós, amando-vos em Jesus Cristo com um amor cuidadoso e paterno, desejando ficar entre vós para abraçar-vos e abençoar-vos.”
O seu plano pastoral considerou a realidade histórica, social, política e religiosa da época. Nas visitas pastorais foi tomando consciência das necessidades materiais e espirituais da diocese, e a sua ação orientava-se segundo o que o contato direto com as pessoas lhe revelava.
Investiu na formação catequética de crianças, jovens e adultos; acompanhou de perto as iniciativas da Ação Católica; sentiu a necessidade de um sério planejamento do ensino religioso nas escolas, formando para isso os professores; e teve grande cuidado pela vida litúrgica das paróquias.
Dom Raffaello era um homem de oração e de ação. A sua relação com Deus o impelia a agir em favor do próximo. Sabia dedicar-se à oração prolongada diante da Eucaristia, à meditação, à convivência com Deus — e, com igual zelo, à acolhida de quem vinha ao seu encontro. Deste modo, oração e ação conviviam serenamente, sem sobrepor-se nem atritar-se.
Através da sua intervenção conseguiu muitas melhorias nas estradas, nos meios de transporte da época e na construção de casas populares. Grandes também foram as suas iniciativas para a promoção cultural.
Um ano depois de sua posse na diocese, Dom Raffaello deu vida à Congregação das Discípulas de Jesus Eucarístico.
O homem da Eucaristia
A vida de Raffaello foi plenamente centrada na Eucaristia. Sobre este aspecto é unânime o coro das testemunhas oculares.
“Ele foi adorador silencioso da Eucaristia; a sua adoração era escuta, era humilde assimilação e dócil incorporação ao mistério da salvação, e se tornava vida vivida na total doação de si aos outros.” Madre Angélica Parisi
“A Eucaristia foi o centro de sua vida, a necessidade mais íntima do seu coração, a alma do seu fecundo apostolado. Dom Raffaello vivia da Eucaristia como o homem vive de pão.” Das testemunhas do processo
Em Jesus Eucaristia, Dom Raffaello via em particular o mistério da humildade de Deus, o mistério da sua “descida” constante ao encontro da pessoa humana. A contemplação eucarística o impelia a fazer espaço ao outro, a sair de si para estar junto ao outro, para procurar o seu bem e promover a sua vida.
Essa plenitude de humildade e vitalidade eucarística ele comunicou à Congregação. Assim escrevia àquela que seria a primeira Superiora Geral:
“Por enquanto só sei que a vida eucarística deverá ser o fundamento de tudo, e que a maior glória de Deus, buscada através do aniquilamento de si mesmas, deverá ser a única aspiração daquelas que serão chamadas a fazer parte desta obra.”
A sua adesão a Jesus Eucaristia, unida à vitalidade e simplicidade humana, tem testemunho naquele genuflexório colocado entre a capela e o escritório — quase demonstrando a continuidade do mesmo ato de adoração e de comunhão. Nos longos colóquios com a Eucaristia sabia permanecer em comunhão com o Eterno, mas era plenamente imerso na realidade humana. O princípio que seguia era este:
“A mente e o coração devem estar no alto, mas os pés devem estar na terra!”
Aqui está a síntese da sua espiritualidade pessoal: um maravilhoso equilíbrio entre o humano e o divino. De fato, não se errou quando Dom Raffaello foi definido “o homem da Eucaristia”.
O abraço definitivo do Pai
Depois de 83 anos de uma existência bem vivida, em 25 de novembro de 1960, Dom Raffaello Delle Nocche foi ao encontro do abraço definitivo do Pai, após ter vivenciado longos meses de uma doença que lhe causou terríveis sofrimentos.
Por dias intermináveis sofreu pacientemente sobre uma poltrona que se tornou para ele mesa de trabalho, cátedra da vida, altar de sacrifício.
Viveu o período da doença com edificante serenidade. Havia períodos intensos de dor nos quais repetia com Jó: “Minha carne não é de bronze” — mas logo dizia ao Senhor: “Quero o que queres, como queres, quando quiseres.”
Mesmo nessas condições, imergia-se na ação: escrevia cartas, recebia pessoas de todas as categorias, aconselhava, dirigia a diocese e a Congregação como sempre — de modo que todos ficavam maravilhados com a sua paciência heroica, serenidade, lucidez e fecundidade de ideias.
Rumo à beatificação
A recordação e a fama de Dom Raffaello cresceram a cada ano. Em 29 de junho de 1968, Dom Bruno Pelaia, bispo de Tricarico, abriu solenemente o processo diocesano informativo sobre a vida e as virtudes do seu predecessor, proclamando-o desde aquele dia Servo de Deus.
Em 10 de maio de 2012, o Papa Bento XVI recebeu em audiência privada o Cardeal Angelo Amato, S.D.B., Prefeito da Congregação das Causas dos Santos. Durante o encontro, o Papa autorizou a Congregação a promulgar o Decreto referente às virtudes heroicas do Servo de Deus Raffaello Delle Nocche — um grande passo rumo à causa de beatificação do nosso amado Fundador, e desde então ele é chamado Venerável.
Pela beatificação do Venerável
Raffaello Delle Nocche
Ó Santíssima Trindade, para a vossa maior glória e para nossa edificação, vos pedimos glorificar o Venerável Raffaello, que, com humildade e caridade, muitas almas guiou no caminho do vosso amor. Se a sua glorificação é conforme a vossa santa vontade, concedei-nos a graça que vos pedimos.
Amém.
Imprimatur · Romae, 24-X-1963 · Bruno M. Pelaia, Episcopus
Recebeu uma graça?
Se alguém receber graças por intercessão do Venerável Raffaello Delle Nocche, pedimos que comunique à Casa Regional:
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