O relato da Transfiguração, apresentado a nós no Segundo Domingo da Quaresma nos diz que “ Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aparência ” (Lc 9,29). Isto poderia nos fazer deduzir, num primeiro momento, que esta “ mudança de aparência ” significa um transportar-se para uma realidade etérea, fora de órbita, lunática, fantasiosa, adotando uma falsa e equivocada compreensão do real sentido da oração. Mas, se esta tentação por alguns segundos povoar nossa mente, basta continuar a leitura e perceberemos que o texto não lhe dá sustentação. Nos versículos seguintes, diz-se que “ dois homens conversavam com Jesus: eram Moisés e Elias. Apareceram na glória, e conversavam sobre o êxodo de Jesus, que iria acontecer em Jerusalém ” (Lc 9,30s). Jesus conversava com Moisés e Elias sobre realidades pertinentes à sua vida concreta: “ o seu êxodo que iria acontecer em Jerusalém ”.
Nesses colóquios, como Sumo Sacerdote do Pai em favor dos homens, apresenta-nos ao Pai, intercede por nós, mergulha a humanidade assumida por ele na realidade divina e a transfigura (Jo 17 – Oração Sacerdotal de Jesus).
Qual o conteúdo da nossa oração? Sem dúvida, a vida. A vida concreta, não somente a minha vida, mas a vida da comunidade, dos homens e mulheres da história. Quando é que a oração é capaz de transforma a vida? Quando somos capazes de levar a vida para a oração. Jesus era um homem lúcido, que tinha bem próxima a o seu coração e à sua mente a realidade em que ele e seu povo estavam inseridos. E é esta realidade que ele apresenta ao Pai durante os seus inúmeros colóquios com ele. Particularmente o evangelista Lucas faz inúmeras referências às retiradas de Jesus para os frequentes colóquios com o Pai: sobe à montanha (Lc 9,28; 6,12); retira-se em lugares desertos (Lc 4,1; 4,42); Frequenta a oração Litúrgica na Sinagoga e no Templo (Lc 4,16; 6,6; 19,45; 20,1).
“Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aparência ...dois homens conversavam com Jesus: eram Moisés e Elias. Apareceram na glória, e conversavam sobre o êxodo de Jesus, que iria acontecer em Jerusalém” (Lc 9,29.30).
Transfiguração: a lucidez de Jesus nos desperta da sonolência
Vindo ao mundo para comunicar a vida de Deus aos seres humanos, o Verbo que procede do Pai, como esplendor de sua glória, “Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, Cristo Jesus, ao assumir a natureza humana, trouxe para este exílio terreno aquele hino que é cantado por todo o sempre nas habitações celestes”. A partir daí, o louvor a Deus ressoa no coração de Cristo com palavras humanas de adoração, propiciação e intercessão. Tudo isso, ele dirige ao Pai, como Cabeça que é da humanidade renovada e Mediador entre Deus e os homens, em nome de todos e para o bem de todos. (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas)
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípulas de Jesus Eucarístico
Mas, felizmente, Pedro e seus companheiros acordaram (v. 32). E, como acontece depois de um longo período de sono, a princípio sentiram-se ainda sonolentos e desconectados: “ Pedro não sabia o que estava dizendo... ficaram com medo... ” (v 33s). Assim aconteceu com Pedro, com os Doze... assim acontece conosco: a passagem de um estado de sono para um estado de lucidez. É possível percorrer este processo de mudança – metanóia – conversão. E é a própria fidelidade à oração que nos educa, nos amadurece, pois o “Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza” (Rm 8,26). Vem ao meu coração o desejo de repetir o insistente pedido que os discípulos dirigiram a Jesus conscientes da própria ignorância e limite: “ Mestre, ensina-nos a orar! ” (Lc 11,1)
Em contrapartida, “ Pedro e os companheiros dormiam profundamente ” (Lc 9,32). E não nos iludamos pensando que esta realidade diz respeito apenas a eles. Nós, discípulos e discípulas de hoje, muitas vezes, adotamos a mesma postura, vivemos desconectados, estamos desatentos, sem presença, sem percepção, dormimos diante da vida. Vivemos de forma alienada, deixando passar momentos importantes. Não nos sintonizamos, nossa oração não transforma a nossa vida. Nos acostumamos com a fé e esta não nos provoca, não nos questiona, não nos desinstala de nossos comodismos. A Eucaristia é celebrada apaticamente e já não participamos mais das celebrações, mas apenas a “assistimos”.