Nós, ao invés, calculamos, medimos, pesamos uma, duas, três vezes... ensaiamos umas outras tantas vezes (e nem sempre nos aventuramos na estreia!). Ele, simplesmente nos olha, nos ama profundamente (Mc), nos convida a segui-lo e nos envia: “ vão! ”. Ele confia mais em nós do que nós mesmos somos capazes de confiar e acreditar. E é assim que Deus tem agido conosco ao longo da história, desde os primeiros instantes da criação até hoje: vem revestindo-nos de profunda importância. E isto faz-nos rezar com o salmista: “ Que é o homem, Senhor, para vós, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho? ” (Sl 8).
“O Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, para toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir”. (Lc 10,1)
Jesus acredita em nós e nos envia em missão
Este versículo me afeta, me provoca. E eu ainda não havia compreendido porquê. Mas agora, alguma clareza começa a tocar minha consciência. Na verdade, fico retida na seguinte questão: Por que Jesus envia os discípulos à sua frente? Por que não faz de forma inversa? Por que não é ele a preparar o caminho para os discípulos? Fico encantada com a forma com a qual Jesus confia nos seus discípulos e hoje, em cada um e cada uma de nós, seus discípulos e suas discípulas do século XXI e em toda a fileira de discípulos e discípulas ao longo da história: os de ontem, de hoje e de amanhã, “ até que ele venha ”. Jesus investe em nós uma enorme credibilidade quando nos diz: “ Vão. Estou enviando vocês (Lc 10,3) ... anunciem que o Reino de Deus está próximo ” (Lc 10,9). Neste ordem: “ vão! ”, há tanta firmeza, decisão, segurança! O seu jeito firme e seguro de me enviar, me faz, por alguns instantes, esquecer das minhas inseguranças e medos. Jesus tem conhecimento dos nossos limites, mas sabe mais do que nós sobre nossas possbilidades: “ Pedro, tu me amas?... apascenta as minhas ovelhas ” (Jo 21).
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípula de Jesus Eucarístico
“ VÃO e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos... Eis que eu estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo ”. (Mt 28,19s)
E o interessante é que ao nos enviar não nos manda de mãos vazias, e é ele mesmo quem nos oferece o conteúdo do anúncio a ser feito: “ ...Digam ao povo: o Reino de Deus está próximo de vocês! ” (Lc 10,9). O conteúdo do nosso anúncio não pode ser outro: o missionário não sai para levar a si mesmo ou outra realidade seja ela a que for como conteúdo da sua pregação, mas sim o Reino de Deus e o Deus do Reino , a exemplo de Jesus. E mais. Ao nos confiar a missão de ser seus co -laboradores Jesus coloca sobre nós uma grande responsabilidade: “ Quem escuta vocês, escuta a mim ” (Lc 10,16). O conteúdo que transmitimos precisa ser fiel àquele que o próprio Jesus nos transmitiu. Nós assumimos com ele este compromisso. Se assim o fizermos, as pessoas o estarão, de fato, escutando quando nos escutarem. Nós somos convocados a comunicar tudo aquilo que, na experiência do discipulado, no convívio cotidiano com ele, na partilha da sua intimidade formos assimilando. É por isso que ele “ chama aqueles que quer para que fiquem com ele ” (Mc 3,16): ele nos educa, nos forma, transmite-nos a sua mensagem a fim de que, tendo-a internalizado, sejamos seus comunicadores. Na certeza de que ele nos envia, mas não de qualquer maneira, nós assumimos, confiantes, a missão. Somos convictos de que ele nos acompanha com a força do seu Espírito e nos sustenta com a sua graça. Confiamos plenamente na sua palavra que nos diz:
Mesmo sendo Deus, não tendo nenhuma necessidade de nós para agir, livremente e gratuitamente “sujeita-se” à nossa co -laboração. Nos con -voca, nos chama a co - laborar ( trabalhar junto ) com ele. Nos em -prega como construtores do seu Reino de justiça e de paz. E aqui, me vem à mente a parábola dos trabalhadores da vinha: ao longo das horas da nossa trajetória terrena vai passando e convocando homens e mulheres de todas as idades, raças, culturas e épocas variadas, fazendo a todos o mesmo convite: “ Vão trabalhar na minha vinha ” (Mt 20,1-8). Ele não quer que permaneçamos “ desocupados o dia inteiro ” (Mt 20,6) enquanto há tanto a se fazer.