Ele me disse: “Criatura humana, fique de pé, que eu vou falar com você”. Foi só ele falar assim, e entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então, eu pude ouvir aquele que falava comigo. Ez 2,1-2
A fecunda relação entre o Espírito e a Palavra
Fui então detida pelos primeiros versículos do capítulo 2 e não consegui mais ir adiante, pois fiquei impressionada com a força daquela palavra: “ ... Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo ” (2,2). Fiquei pensando na força do Espírito que nos coloca de pé, em prontidão para ouvir a Palavra d’Aquele que fala conosco. O estar de pé é uma postura corporal muito significativa: sinaliza a pré -disposição para a ação, assim como o estado de atenção. É o próprio Espírito que nos pré -dispõe à escuta da Palavra. E isto me faz re -cordar ( trazer de novo ao coração ) do episódio da “pesca milagrosa” (Lc 5,1-11). Estando Jesus a ensinar às margens do lago de Generasé as multidões seapresentaram para ouvir a Palavra de Deus. Quando, em certo momento, Jesus convida Pedro a lançar as redes em águas mais profundas, mesmo tendo já experimentado durante “toda a noite ” que naquele mar não havia peixe, diz a Jesus: “ em atenção à tua palavra, vou lançar as redes ”. E nós já sabemos o que resulta daí. A multidão se comprime para ouvir a Palavra, mas enquanto não dermos conta de, tocados pelo Espírito, aderir e responder pessoalmente a esta Palavra, seremos seres sem identidade = multidão .
Do meio da multidão sem rosto, é individualizado alguém que tem um nome: Simão. E este indivíduo dialoga com a Palavra feita Carne, tornando-se sujeito naquele diálogo: “ Em atenção à tua Palavra vou lançar as redes ”. E mais. À medida em que o Espírito cria em nós condições de “ ficar de pé ” diante d’Aquele que fala conosco, ouvindo sua Palavra, esta mesma Palavra vai nos moldando a si, conferindo-nos nova identidade: “ Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas – que quer dizer Pedra (Jo 1,42) ... De hoje em diante você será pescador de homens (Lc 5,10). À medida que vamos integrando esta nova identidade conferida a partir do encontro com a Palavra feita Carne, vamos sendo interpelados a assumir as suas posturas e atitudes, relacionando-nos com a Palavra e propagando-a segundo o seu estilo. E nós bem sabemos que, na vida de Jesus, todo anúncio da Palavra nasce a partir da fecundidade do Espírito.
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípula de Jesus Eucarístico
Ainda é Lucas, o “ Evangelista do Espírito ”, que nos recorda que após o Batismo “ Jesus volta para a Galiléia com a força do Espírito ” (Lc 4,14), e, a partir desta força vamos percebendo o que este dinamismo do Espírito o impele a realizar: inicia o ensino da Palavra na Sinagoga de Nazaré e apresenta o seu Projeto (Lc 4,16ss); anuncia e denuncia, provocando espanto e admiração nos ouvintes (Lc 4,22ss); o Espírito que habitava Jesus libertava as pessoas possuídas por espíritos de “demônios impuros” (Lc 3,3ss). Assim sendo, que o Espírito que movia Jesus, que é o mesmo que foi enviado a nós por ele e pelo Pai, nos ajude a ouvir, acolher, transmitir, com a mesma força de Jesus a “Palavra d’Aquele que fala conosco”. Que esta Palavra nos transforme e nos ajude a ser instrumentos de transformação da realidade. Amém.
Preparando-me para iniciar o mês de setembro, fui visitar o livro de Ezequiel à procura da passagem onde Deus apresenta um rolo ao Profeta para que ele o coma e se sacie da palavra nele escrita, levando a sua mensagem à Casa de Israel (Ez 3,1-3). Não sabia exatamente onde se encontrava e comecei a percorrer o livro a partir do primeiro capítulo.