Vocação de tecelão
Deus é o “ Divino Rendeiro ”, o “ Divino Tecelão ” que inicia a confecção do tecido da nossa existência. Mas, ele tece até certo ponto. A certa altura ele entrega os fios em nossas mãos, a fim de que continuemos a arte! E a confecção da obra de arte da nossa vida se dá necessariamente na relação com as outras pessoas. Ao nos entregar nas mãos a co-responsabilidade pela continuidade da confecção de nossas vidas Deus nos coloca à disposição alguns “instrumentos de trabalho” – um desses instrumentos é a PALAVRA. A palavra – insiste em nos afirmar Ir. Marcelo – “ é uma pá que lavra , trabalha, cultiva a existência humana através da linguagem, trazendo em si uma incrível força de vida ou de morte ”.
Podemos deixar que a narrativa nos questione a respeito de como estamos tecendo a obra de nossas vidas. Qual tem sido a arte que estamos produzindo? Qual tem sido a nossa parcela de colaboração para o tecido da vida em nossa família, trabalho, escola, igreja, na sociedade? Nas relações que vamos tecendo com os mais diversificados grupos sociais em que participamos o que temos confeccionado? Neste sentido, recordo-me de um outro conto intitulado A moça tecelã , de Marina Colassanti . Eucaristia: narrar e atualizar a memória “ Fazei isto em memória de mim ”
A palavra, a linguagem, se reveste de multiformes roupagens. É muito criativa. Como sendo fruto da criatividade divina ela assume os traços da criatividade do seu autor. 2. Contar e ser contado: a dinâmica da vida A dinâmica da continuidade da vida passa pela realidade da descendência – continuidade. A continuidade, a perpetuação passa pela realidade do conto, da narrativa. Não apenas ser contado – passividade. Mas assumir o protagonismo na arte de contar, tecer como sujeito o conto. Não apenas ser narrado, mas narrar; não simplesmente ser confeccionado, mas confeccionar; não apenas ser contado e ser cantado, mas contar e cantar; não somente “ser dançado”, mas dançar; não somente ser amado, mas amar: não ser mero expectador no tecido da vida, ainda que o seu lugar seja um luxuoso e confortável camarote. Sair da platéia, assumir o palco. Haverá sim, alguns momentos de platéia, pois na relação nos revezamos no protagonismo. Mas, assumir o seu papel. Neste momento me recordo de um belíssimo e significativo conto de Gabriel García Marquez , reinterpretado por Rubem Alves em seu livro “ Lições de Feitiçaria ” – As mulheres e o afogado .
A pessoa humana e sua vocação de tecelã A pessoa humana é um ser de relação desde as suas origens: “ Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer para ele uma auxiliar que lhe seja semelhante ” – Gn 2,18. Significa dizer que ela não se faz sozinha. A minha construção enquanto pessoa se dá através das relações que vou tecendo no decorrer da minha existência. A imagem do TECER , para mim, é uma das melhores, mais significativas e efetivas para simbolizar o conceito de relação. O tecido vai sendo constituído à medida que os fios se entrelaçam. E, como que numa lenta e harmoniosa dança entre os fios soltos, o “milagre” da obra de arte vai sendo concretizado, ganhando corpo, consistência e vida.
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. Gênesis 1,26.28
MEMORIAL O Hoje de Deus na História
Re -Contar Re -Cordar Re -Viver Re ≠ Repetição Re = Continuidade “ HOJE a salvação entrou nesta casa” “ HOJE cumpriu-se esta palavra da Escritura”
A Eucaristia é instituída num contexto de Ceia Pascal Judaica: o memorial da libertação do Egito. Fazer memória é atualizar no tempo a salvação de Deus na História. A memória vai sendo construída através da narração, da recordação dos fatos da história. Jesus nos convoca a continuarmos nos reunindo ao redor da mesa, ceando untos “até que Ele venha”, fazendo memória de toda a sua vida: caminho de salvação oferecida ao Pai por nós. Celebrar a Eucaristia Fazer Memória
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípula de Jesus Eucarístico