Uma coisa é certa: existe em cada um de nós um desejo muito grande de estar de bem com a vida. Ao mesmo tempo persiste uma vontade não menor de consolidar nossas convicções, de cultivar o otimismo e firmar nossas amizades expandindo amor. A razão disso é a tentativa de responder aos anseios profundos que se apresentam à nossa mente em forma de interrogação: • Até que ponto percebo que a minha vida tem sentido? • Quais as dúvidas que impedem meu ritmo de crescimento? • Por que tantas injustiças e tanta falta de solidariedade? • Sei onde está meu irmão? (cf.Gn 4,9)
Repensar a Esperança
Não precisamos multiplicar os questionamentos, torna-se necessário fixarmos nosso olhar na virtude que convida a caminhar, a planejar, a confiar: é a esperança. Ora, “repensar a esperança” consiste, antes de tudo, em não dar espaço ao desânimo e ao pessimismo. Nesse sentido, nossa luz será sempre o percurso bíblico, a palavra inspirada, o alimento próprio que nos mantém abertos para o futuro.
João Paulo II, na encíclica sobre a Eucaristia, começa dizendo que “A Igreja vive da Eucaristia” e ao lembrar a importância de não cair na decepção e no desespero, também traz à nossa memória “Aquele viandante divino que um dia se pôs a caminho com os dois discípulos para abrir-lhes os olhos à luz e o coração à esperança” (n º 58). “Infelizmente, através dos séculos, nem sempre o sentido profundo do memorial, do gesto da Páscoa de Jesus, foi assumido na sua integridade e no seu caráter de exigência.” Sempre é tempo de “cair em si” (cf. Lc 15,17), de perceber que precisamos de coragem para dirigir-nos ao Mestre: “Permanece conosco... a noite vem chegando”(cf Lc 24,29).
Vamos entrar no âmbito dessa luz. Quando o profeta Jeremias quer manifestar o carinho de Deus para com o povo que se encontra em terra estranha, conforta com estas palavras: “... há uma esperança para o teu futuro”(Jr 31,17). O apóstolo Paulo exorta a confiar no “Deus da esperança”, o Deus que, pela força do Espírito Santo, faz com que todos “transbordem de esperança” (cf.Rm 15,13). Ora, como poderá a esperança transbordar da nossa vida, do nosso interior? Se olharmos para a prática de Jesus e seu estilo de vida, só poderemos concluir que será através da solidariedade, da prática do amor e da justiça, daquela justiça que se identifica com a vontade de Deus. Vamos deixar que Paulo continue abrindo nossos horizontes. Ao lembrar o motivo da nossa esperança, ele escreve: “Nós nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança produz a fidelidade comprovada, e a fidelidade comprovada produz a esperança. E a esperança não decepciona...” (Rm 5,3-4). E ainda: “Que Deus ilumine os olhos dos vossos corações para saberdes qual é a esperança para a qual fostes chamados” (Ef 1,18). Paulo também reanima os fiéis de Corinto, escrevendo: “...a nossa esperança a respeito de vocês é firme”(2 Cor 1,7). Avançando na reflexão, vamos aterrissar no campo de Lucas para consultarmos o que escreveu a Teófilo, no evangelho e nos Atos. Os cristãos das primeiras comunidades, fortalecidos pelo entusiasmo e pela convicção dos apóstolos, encontraram na expressão ritual da ceia eucarística o espaço central para dar sentido à sua fé, à sua existência, a toda a sua vida. “Eram perseverantes no partir do pão” (At 2,42) e aproximando-se da mesa do Senhor, tiveram a oportunidade de realizar, no dia-a-dia, o exercício da esperança. Se tomarmos o rumo de Emaús, estaremos acertando o caminho, pois precisamos ouvir aquele “desconhecido” que foi caminhando com Cléofas e o companheiro. Devemos ter a coragem de convidá-lo e acolhê-lo, para que, “ao partir o pão”, ele reavive a nossa esperança, que corre o risco de tornar-se fraca a cada instante. De fato os acontecimentos tristes, o pessimismo fácil, a falta de diálogo, marcada pelo egoísmo, podem produzir um esfriamento da fé, ameaçando nossa perseverança, nossa fidelidade e ainda mais a nossa esperança.
Nossas celebrações, nossas procissões... terão valor na medida em que levarmos a sério a proposta do amor, da doação e do perdão. Há uma convicção a ser consolidada com urgência: sentar-nos à mesa com Jesus. Ali encontrarmos o lugar certo para descobrir a necessidade de praticar o amor e de repensar a esperança. Padre André Agazzi Congregação do Santíssimo Sacramento