Eucaristia: Sonhar é preciso
Hoje em dia, com a tal da globalização, parece até proibido sonhar. Cuidado com isso. Reagir é preciso, repensar é preciso, redescobrir é preciso. Tudo isso está ao nosso alcance. Afinal, a nossa esperança tem nome, a nossa fé continua tendo sentido e a nossa caridade sabe encontrar a fonte e o espaço onde é possível respirar em profundidade. Por que será que, às vezes, contemplando as propostas de Jesus, seu jeito de agir e de falar, sentimos uma certa vergonha de nós mesmos? Não dá vontade de tomar juízo ao defrontar-nos com o “Nazareno”, acolhedor, firme, bondoso, decidido, exigente? É Ele quem caminha conosco, garantindo sempre: “Não tenham medo – eu venci o mundo – a tristeza de vocês se converterá em alegria”. Claro, ao folhearmos o livro da nossa América Latina, tão conturbada, tão “sem baterias”, não é nada fácil optar pelo otimismo. Temos medo de votar porque é preciso escolher. Titubeamos quando somos convidados a assinar uma lista exigindo justiça. Espantou-nos a coragem do Papa João Paulo II ao propor e desejar um ecumenismo entre as várias religiões. Por que tanta insegurança?
Vamos tomar uma atitude. Proponho o seguinte: Sentar à mesa com o Ressuscitado. É o Mestre quem nos convida: “Venham todos ao banquete – comam – bebam... é de graça”. Que loucura, nem de graça aceitamos! Abro o terceiro evangelho e leio: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer” (Lc 22,15). É Jesus falando. Parece estar dizendo: Não é de hoje que estou pensando nisso, sempre desejei que chegasse “esta hora”. A isso eu chamo sonho de verdade. Acreditar que é possível a chegada do momento certo, momento de perceber que a vida tem sentido. Que sonho lindo. Realiza-se ao pôr-se à mesa com os Doze. Um sonho que se realizou e continua com exigência de realização. Temos tudo para cultivar uma “mística” e uma “espiritualidade”a partir deste sonho, a partir do gesto do Mestre. Urge acreditar que é possível “dar a volta por cima”. Vale a pena lembrar o otimismo de Jesus ao contar a parábola em que convida a cultivar o trigo sem afobar-se com a presença do joio (Mt 13,24).
É uma grande responsabilidade querer atualizar aquele gesto realizado na hora certa por Jesus: gesto anúncio e denúncia ao mesmo tempo. Pena que às vezes não sabemos cultivar o trigo. Temos tudo para alcançarmos a felicidade. Onde encontrar a força de comprar “o campo” que esconde “o tesouro”? Achamos “a pérola de grande valor”, mas é preciso “vender tudo”, mudar por completo o jeito de agir, de pensar... é muita exigência... e tudo fica para a próxima. Será por quê? Há sempre perguntas questionadoras que não queremos ouvir. É mais uma vez o preço do compromisso. Jesus continua vivo entre nós, por ter deixado uma proposta de vida. Por ter feito a opção pelo perdão, pelo serviço, por uma ação libertadora. Por ter proclamado “felizes” os pobres, os construtores de paz, os perseguidos por causa da justiça e por ter-se tornado disponível ao declarar: “Eis que venho, ó Pai, para fazer a tua vontade”.
Resta-nos “fixar o nosso olhar nele” (cf. Hb 12,2) e ter a convicção de que é possível “sonhar”, lembrando aquela páscoa realizada na hora certa. Vamos “desejar ardentemente” dar continuidade àquele “sonho” com sabor de doação. Sonho onde “correu sangue”. Sonho-proposta, exigindo atualização, reinterpretação, vivência, autenticidade e coragem. “Para que o mundo tenha vida” (Jo 6,51), sonhar é preciso. Padre André Agazzi Congregação do Santíssimo Sacramento
Palmas para Ele! Durante este “Ano da Eucaristia”, toda vez que celebramos a Ceia do Senhor, toda vez que estivermos em adoração diante do “pão da vida”, será o mesmo que cantar “parabéns” para “o Senhor da história”, Àquele que dá sentido ao nosso caminhar. É bom que saibamos que se quisermos continuar a celebrar a “Eucaristia”, devemos estar dispostos a “sonhar alto”, dispostos a “incomodar” e até a “tornarmo-nos um perigo”. Não podemos esconder a nossa realidade. Dentro de nós existe também uma fina mistura de elementos perturbadores: orgulho, egoísmo, vaidade, ganância e até hipocrisia. Delongarmos a “ladainha”, podemos correr o risco de dar vazão a um certo pessimismo. Não há dúvida, que, se quisermos ter uma boa saída, não podemos desistir de “andar com Ele”, o nosso Mestre.