A fresta é apenas uma fresta...
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípula de Jesus Eucarístico
“ Quem é esse homem sobre quem ouço dizer essas coisas? ” Uma vez ouvi dizer que o desejo é uma brecha; uma fresta através da qual ou a partir da qual possibilidades inúmeras poderão despertar. É interessante a pergunta do Rei Herodes: “ Quem é esse homem sobre quem ouço dizer essas coisas ”? Nela existe uma fresta, ainda que pequena, frágil, sutil. Chama a minha atenção as expressões que Lucas utiliza nestes poucos versículos que relatam a “busca” – ou a curiosidade! – de Herodes a cerca da pessoa de Jesus: “ ... ouviu falar” “... ficou sem saber o que pensar” “... quem é esse homem?” “... queria ver Jesus ”. São expressões fortes que me levam a pensar naquela genuína “saudade” de Deus que existe em cada um de nós e da qual tão bem fala Santo Agostinho quando diz: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto estará o nosso coração enquanto não repousar em ti”. Isto me leva a recordar das expressões empregadas pelo salmista: “ A minh’alma tem sede... como terra sedenta, árida, sem água ” (Sl 62); “ O meu pranto é o meu alimento, de dia e de noite! Quando terei a alegria de ver a face de Deus? ” (Sl 42); “ Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh’alma por vós, ó meu Deus! ” (Sl 42). Herodes me intriga! Marcos diz que Herodes sabia que João Batista “ era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava ” (Mc 6,20). Mas, mesmo assim acaba concordando em mandar matar João, mesmo ficando triste com esta decisão, para não voltar atrás em sua palavra dada na frente dos convidados (Mc 6,26). Continuo acreditando que o desejo é brecha. E até acredito em uma certa dose de retidão e sinceridade que existia em Herodes quando ouvia com prazer a João e quando manifestou o desejo de querer ver Jesus. Mas acredito também que isto não é tudo. Ajuda, mas é apenas o começo. Há, depois disso, um caminho pela frente que precisa ser percorrido. E aqueles que, no exercício da sua liberdade se dispuserem a colocar-se em marcha, à caminho, Deus virá e caminhará a seu lado, incitando ainda mais o seu desejo, alargando a fresta inicialmente aberta, através da qual passa luminosidade que aclara e guia a caminhada. Colocar-se a caminho e percorrer este itinerário precisa ser fruto de decisão, de acolhida que patê da vontade exercitada na liberdade. Deus não nos obriga e não nos força. O desejo é ele quem desperta, mas a resposta precisa ser de cada um. Herodes não avançou. Que pena! Depois de um certo tempo viu Jesus, finalmente. Mas seu desejo não passou de curiosidade estéril. E nós?