Eucaristia: palavra e pão
Padre André Agazzi SSS
Na vida, caminhar é preciso... enxergar é preciso... alimentar-se é preciso... Pergunta-se: onde encontrar força para andar, luz para não tropeçar, comida para não desmaiar? Quando penso no Deus – amigo que proporcionou alimento ao povo no deserto, suscitando aquele grito de surpresa e de maravilha: “maná”-“o que é isso”?... Quando penso que a Palavra de Deus se fez carne... e que Jesus de Nazaré se fez pão... dá vontade de arrancar aquela dureza que petrifica o coração. Pensar é bom, mas não é tudo. É bom rezar, mas não basta. Temos que ir um pouco mais longe. Há muitas fomes aguardando uma resposta. Há muito alimento sobrando sobre as nossas mesas. É evidente que a palavra que não é comunicada, deixa de ser alimento, causando mais vazio. O pão que não é partilhado só pode servir de alimento para o egoísmo. A Eucaristia é alimento e a palavra também. Esta nossa reflexão quer encontrar apoio nos textos de Vaticano II, o Concílio Ecumênico que despertou o mundo católico para uma visão mais profunda da vida cristã e de toda a realidade humana. Eucaristia: palavra e pão. O texto mais explícito para o nosso tema, o encontramos no documento sobre a Revelação. “ A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor já que, principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar, toma da mesa da Palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo, o PÃO DA VIDA e o distribui aos fiéis ” (DV 21) Percebemos que “ o tesouro da Revelação ” (DV26) é apresentado de modo a formar um “binário” iluminador juntamente com a mesa da Eucaristia. “ Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela assídua participação no Mistério Eucarístico, assim é lícito esperar um novo impulso de vida espiritual de uma acrescida veneração pela palavra de Deus... ” (DV 26) A Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia traz a significativa expressão: “ mesa de Palavra de Deus ” (SC 51) Aos que “ professam os conselhos evangélicos ” é lembrado que devem sentir-se “ revigorados à mesa da divina lei e do Sagrado Altar ” (DV 6) O Decreto que contempla a vida dos presbíteros expressa claramente a idéia de alimento provindo da “dupla mesa da Sagrada Escritura e da Eucaristia ” (PO 18) Transformar, fortalecer, iluminar é algo que encontra sua fonte nas “duas mesas”. O salmista nos lembra: “ Tua palavra é lâmpada para meus pés E luz para o meu caminho ” (SL 118, 105) Desde nossos primeiros contatos com a catequese ouvimos dizer que a própria Eucaristia é como o “sol” irradiando luz. É o mesmo Sol presente na obra-prima de Francisco de Assis: “O Cântico das Criaturas”. Vamos deixar Francisco cantar: “ Louvado sejas, meu Senhor Com todas as tuas criaturas Especialmente o senhor Irmão Sol Que clareia o dia E com sua luz nos alumia E ele é belo e radiante Com grande esplendor: De Ti, Altíssimo, é a imagem ” Parece até acompanhar o Apóstolo quando escreve: “ O Filho amado é a imagem do Deus invisível ” ( Cl 1,3-5). Como é gostoso cantar: “É Ele o pão que se vai repartir O pão da palavra que vamos ouv ir” As “ duas mesas ” lembram os dois preciosos alimentos. Cabe-nos perceber a urgência de acolher, valorizar e partilhar tudo isso, “ para que o mundo tenha vida ” (Jo6, 51), conforme o desejo de Jesus. É tarefa nossa levar a sério “ palavra e pão ”. “ Quando o dia da paz renascer ” ... desejamos que haja “ pão em todas as mesas ”. Sonhar é sempre possível. Vamos cantar até o sonho se realizar. Nesta “era” em que fala-se de “holística” e de “economia globalizada”, vivendo numa “sociedade em rede”, poderemos seguir o conselho de Paulo: “ contemplar tudo e ficar com o que é bom ”. Cuidado para que ninguém seja instrumentalizado. Se a “corrente” atual visa o acúmulo e o desrespeito à pessoa, vamos formar a “contra-corrente” partilhando e acolhendo, fortalecidos pelo “pão da vida”. Valerá à pena!