Maria diante do silêncio de Deus
Inácio Larrañaga In: O silêncio de Maria
É possível que a história mais lacônica, completa e patética da Bíblia esteja contida nestas palavras: “Junto à cruz de Jesus, estava de pé sua Mãe” (Jo 19,29). Essas breves palavras evocam um vasto universo, com implicações transcendentais para a história da salvação.
“Senhora da Páscoa: Senhora da cruz e da esperança, Senhora da sexta-feira e do domingo, Senhora da noite e da manhã, Senhora de todas as partes, porque és Senhora do “trânsito” ou da “Páscoa”. Escuta-nos: Hoje queremos dizer-te “muito obrigado”. Muito obrigado, Senhora, por teu “Fiat”; Por tua pobreza e teu silêncio. Por teres ficado conosco apesar do tempo e das distâncias”. (Cardeal Pirônio)
A pergunta chave para ponderar o mérito e, conseqüentemente, a grandeza da fé de Maria, é esta: Maria conhecia todo o significado do que estava acontecendo naquela tarde no Calvário? Sabia, por exemplo, tanto quanto nós sabemos sobre o significado transcendental e redentor daquela morte sangrenta? No meio dessa escuridão, Maria, diz o Concílio (LG 62), manteve o seu faça-se em tom sustenido e agudo. Pai querido, não entendo nada no meio desta confusão geral; só entendo que, se não quisesses, nada disto teria acontecido. Faça-se, portanto, tua vontade. Tudo parece incompreensível, mas estou de acordo, meu Pai. Não vejo porque teria de morrer tão jovem, e principalmente dessa maneira, mas aceito tua vontade.
Não vejo porque teria que ser este cálice e não outro. Mas não importa. Faça-se. Meu Pai, em teus braços deposito meu querido Filho. Foi um holocausto perfeito, a oblação total. A Mãe adquiriu uma estatura espiritual vertiginosa. Nesta tarde, a Fidelidade levantou um altar no cume mais alto do mundo.
Quando o Concílio diz que Maria foi avançando na peregrinação da fé, fala no mesmo parágrafo, com insistência, no Calvário: “Manteve fielmente sua união com o Filho até a cruz, onde esteve não sem desígnio divino. Veementemente sofreu junto com seu Unigênito. E com ânimo materno se associou ao seu sacrifício, consentindo com amor a imolação da vítima por ela mesma gerada” (LG 58). Com essas expressões e principalmente pelo contexto, o Concílio pareceria indicar que o momento alto e também a prova, - porque não há grandeza sem prova – para a fé da Mãe esteve no Calvário. Há outro parágrafo, no mesmo documento, em que o Concílio, com uma expressão lapidar e emotiva, ressalta que a fé de Maria alcançou sua mais alta expressão junto à cruz. Com efeito, falando do faça-se de Maria pronunciado no dia da anunciação, acrescenta estas significativas palavras: “que sob a cruz resolutamente manteve” (LG 62). Assim o Concílio quer indicar que a prova mais difícil para o faça-se de Ma-ria foi o desastre do Calvário.