Manter a lâmpada acesa
Com o tempo do advento nós iniciamos um novo ano litúrgico. E qual espiritualidade este tempo nos propõe? Advento significa chegada. Comumente a chegada é precedida de uma espera. Quando não nos preparamos através da espera a chegada pode não culminar no encontro entre quem chega e quem já está. Se a chegada não é preparada pela espera, pode haver uma certa sensação de desconforto, invasão de espaço físico e emocional. Mateus, o evangelista deste novo ano A, nos propõe no capítulo vinte e cinco de seu evangelho uma parábola sobre o Reino de Deus, que descreve muito bem que atitude se espera daqueles que peregrinam no caminho do seguimento de Jesus, à espera do advento de seu Reino:
Alegra-me pensar nesta imagem da saída. As virgens que “ saem ” nos sugerem pensar em pessoas que estão a caminho. E estar a caminho significa reunir energias e direcioná-las a uma meta à qual se queira atingir. Nossa meta é o encontro com o noivo. Advento é chegada. Chegada do noivo, nosso Mestre. Mas não é uma chegada que diz de uma realidade passiva. A saída do noivo em direção a nós supõe igualmente uma saída nossa em direção a Ele e, em determinado ponto do caminho, o encontro acontece. Há alguns elementos que se fazem necessários considerar nesta peregrinação, e que são fundamentais para que o advento seja eficaz. Dentre eles, consideremos alguns. Primeiramente, o elemento da lâmpada e do óleo de reserva. Não basta que haja óleo em nossas lâmpadas; a reserva é significativamente necessária. E o evangelho nos diz que dentre as dez virgens cinco eram “ sem juízo ” e as outras cinco eram “ prudentes ”. As sem juízo não levaram consigo reserva de óleo.
Ser “ sem juízo ”, talvez signifique ser sem “ consciência ”. E quem caminha sem consciência, sem clareza de onde se está partindo e aonde se quer chegar, na maioria das vezes não chega a lugar algum. Assim, pode-se dizer que a consciência é o óleo, o combustível que alimenta a nossa lâmpada e aclara o nosso caminhar. E ao falar de consciência, não vamos imaginar apenas a sua dimensão cognitiva-intelectual. Mas, considero consciência como presença, atenção à realidade, clareza de meta, ser portador de um olhar capaz de uma sóbria leitura do presente. Faz parte também de uma sã consciência contar com os próprios limites e fragilidades. Não somos “deuses”. Somos seres humanos a caminho, em construção, inacabados, por isso há momentos em que nossos olhos “ pesam de sono ” e “ acabamos cochilando ” (v. 05). Somos seres que trazem em si a possibilidade de cochilar! Mas, ainda que cochilemos, importa que tenhamos óleo para fazer arder nossas Lâmpadas. Cochilar sim, mas mantendo a lâmpada acesa bem ao lado, com a postura semelhante à da Amada do Cântico dos Cânticos: “ Eu dormia, mas meu coração velava, e ouvi o meu amado que batia ” (Ct 5,2).
Nestas quatro semanas do tempo litúrgico do advento, alimentando-nos do cardápio da Palavra de Deus oferecido com abundância por meio da liturgia cotidiana, saibamos nós encontrar tempo para rever nossa caminhada de discípulos e discípulas do Mestre. Que a luz de sua graça ilumine as nossas lâmpadas e complete as nossas reservas de óleo. Que este tempo nos encontre vigilantes, a fim de que, quando no meio da noite ouvirmos o anúncio da chegada do noivo, estejamos disponíveis para o encontro e sejamos muito felizes com Ele. Maranathá! Vem, Senhor Jesus!
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípulas de Jesus Eucarístico
Nosso óleo assume, ainda, além da dimensão da consciência, a dimensão de uma fé consistente, de uma esperança esperançosa e de um amor capaz de amar porque vigia e de vigiar porque ama. Quem ama tem o foco no amado – como nos canta Ana Carolina – “ Eu não vou parar de te olhar ”. Por isso mesmo há um sadio temor da impossibilidade de encontrar-se com o sujeito de seu amor. O que leva a uma prudente prevenção a fim de que nada e nem ninguém impeça a realização do encontro. As virgens prudentes carregam consigo óleo, pois sabem o que desejam: encontrar-se com o Amado. Tudo o que fazem está direcionado a este fim. Talvez as virgens sem juízo estão caminhando como quem segue sem rumo, e vão não aonde querem ir, mas aonde lhes arrasta a multidão. Vão não aonde lhes levam seus desejos, mas aonde lhes levam os desejos dos outros (v. 09). E aí, finalmente, vemos o desagradável desfecho e terminamos a leitura com uma sensação de frustração quando ouvimos tais palavras que saem da boca do noivo: “eu garanto a vocês que não as conheço” (v. 12). Mas, não nos esqueçamos: nossas escolhas determinam o rumo que tomam nossas vidas: optar por levar conosco óleo ou não dará direcionamentos diversos à nossa existência. E não adianta culpar os outros – o muito que os outros podem fazer por nós é nos lembrar de que é preciso carregar óleo conosco. Mas a decisão de trazer o óleo conosco, o desejo de levá-lo é totalmente pessoal. Ninguém pode fazer brotar em nossa consciência desejo, querer, vontade. Conhecimento em sentido bíblico é sinônimo de encontro, experiência, relação de intimidade – relação consciente com o outro. As virgens sem juízo, sem consciência, por caminharem levadas pelos desejos das outras, talvez não houvessem vivenciado uma relação pessoal com o noivo e por isso “ não o conheciam ”.
“O Reino do Céu será como dez virgens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo” (Mt 25,1).