Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípulas de Jesus Eucarístico
Curiosamente, hoje, o mesmo homem que decreta a “morte de Deus” sai à procura do divino, do transcendente. Cada um “cria” e configura para si o seu próprio Deus; aquele Deus que o satisfaça mais plenamente e que melhor se encaixe em seus moldes particulares. Falta sentido. A pessoa continua sedenta do verdadeiro Deus e o busca desorientadamente. As religiões e seitas espiritualistas recebem seus adeptos a cada dia, pois oferecem a experiência do transcendente, do qual as pessoas estão sedentas.
O mundo hodierno com todas as suas conquistas e vitórias, com todas as respostas prontas para os questionamentos mais profundos propostos pela pessoa humana; com toda a plenitude das descobertas da ciência e da tecnologia, enfim, com toda a sua saciedade, é contraditoriamente um mundo no qual as pessoas sentem-se muitas vezes, vazias e sedentas, mergulhadas em um profundo vazio existencial, submersas e confusas pela própria limitação e carentes de algo que lhes confira um SENTIDO que seja capaz de preencher sua existência desde o mais íntimo de seu ser. Nem mesmo a racionalidade científica, com a pretensão de dar sempre sua última palavra a respeito de tudo, conseguiu satisfazer tamanha exigência. E o homem continua a buscar, a angustiar-se, a sentir-se incompleto. Há um tempo, a cientificidade dizia não a todo tipo de categoria religiosa. A fé não possuía mais voz nem vez e decretava-se, pretensiosamente, a “morte de Deus”. Era a explosão da Modernidade. A ciência reclamava a sua autonomia, sua independência: afinal, a religião não pode revestir-se da pretensão de tudo saber e explicar, como durante o longo período da Idade Medieval. O homem, “matando Deus”, entusiasmado e seduzido pelo seu “si mesmo” e pela ciência, passa a correr atrás desta como que se estivesse querendo Elegê-la seu Deus, como que para substituir as vezes daquele outro que acabara de ser rejeitado. Viu-se inclinado a encontrar nela todas as respostas que buscava e, no final, acabou por permanecer desiludido, pois a ciência, sua “nova deusa”, respondeu a algumas perguntas, mas deixou uma infinidade de outras sem resposta.
São João da Cruz Mistagogo do homem e da mulher à procura do Deus verdadeiro
I – João da Cruz: um homem que orienta a busca do Deus verdadeiro para o homem e a mulher de hoje Um homem que viveu há quase meio século, em que pode contribuir para as pessoas do terceiro milênio? Sem dúvida, São João da Cruz ilumina a busca de Deus, do Deus verdadeiro, que realmente preenche o vazio e restitui O SENTIDO à existência humana. A atualidade do seu pensamento está na resposta satisfatória que ele consegue dar às angústias dos homens. Tenta penetrar o coração do homem e acalmá-lo nas suas revoltas, apresentando o ideal da unidade: DEUS. A situação “do homem”, de São João da Cruz, é a de homem de sempre: a busca do Absoluto, o ideal da perfeição, da libertação do nada, o encontro com o TUDO (Patrício Sciadini – OCD).
João da Cruz vem nos dizer que somente Deus pode plenificar o coração do homem. Ele é uma pessoa que faz a experiência do Absoluto em sua própria vida e, como um grande Mistagogo, consegue, a partir da própria experiência, nos conduzir seguramente a Deus. A busca de Deus é também busca de unidade interior. Porém, esta é uma busca árdua, difícil que exige força de vontade e empenho. É a ascese de que nos fala Platão no ilustre “Mito da Caverna”, referindo-se à alma que, saindo da caverna das suas sombras, quer contemplar não mais apenas as sombras, mas as realidades em si mesmas; quer não apenas reflexos de luz, mas, ao contrário, quer poder contemplar o próprio sol. Aquele que sai da caverna, num primeiro impacto com a claridade pode querer deixar a luta iniciada e permanecer nas sombras, temendo o enorme grau de esforço que será necessário empreender para acostumar-se definitivamente com a luz e, um dia finalmente, poder suportar olhar para o sol. Mas o desejo de “plenitude” o impulsionará em sua busca e não o deixará desanimar, pois o ser humano tem sede de infinito, tem sede de Deus. João da Cruz nos ensina com a própria experiência que vale a pena a busca apesar das dificuldades. É necessário ter claro diante dos olhos o ideal, a meta e investir tudo para atingi-la. Ele mesmo era um homem feliz, porque sabia onde queria chegar: tinha clareza de objetivos. Ele não vive simplesmente por acaso, mas vive e sabe porquê de seu viver. Mesmo em meio às adversidades, aos contrastes sombrios e turbulentos da vida, ele não desanima. Continua caminhando tranqüilo e sereno porque as dificuldades não lhe ofuscam a visão, e seu ideal continua visível aos olhos. Mesmo nas “noites” Deus continua resplandecendo em sua vida e na vida de todo homem, mesmo se, aparentemente dê a sensação de estar ausente. II – A dificuldade da busca e a certeza do encontro No cárcere, em Toledo, na experiência dura da incompreensão de seus confrades, na experiência do aparente silêncio e abandono de Deus, João sabe que a ausência é realmente aparente, e a sua se torna uma solidão “povoada” por Deus.
Aquela eterna fonte está escondida, Mas bem sei onde tem sua guarida, Mesmo de noite. Sua origem não a sei, pois não a tem, Mas sei que toda origem dela vem, Mesmo de noite. Sei que não pode haver coisa tão bela, E que os céus e a terra bebem dela, Mesmo de noite. Eu sei que nela o fundo não se pode achar, E que ninguém pode nela a vau passar, Mesmo de noite. Sua claridade nunca é obscurecida, E sei que toda luz dela é nascida, Mesmo de noite. Sei que tão caudalosas são suas correntes, Aquela eterna fonte está escondida, Que céus e infernos regam, e as gentes, Neste pão vivo para dar-nos vida, Mesmo de noite. Mesmo de noite. A corrente que desta fonte vem, De lá está chamando as criaturas, É forte e poderosa, eu sei-o bem, Que nela se saciam às escuras, Mesmo de noite. Mesmo de noite. A corrente que destas duas procede, Aquela viva fonte que desejo, Sei que nenhuma delas a precede, Neste pão de vida já a vejo, Mesmo de noite. Mesmo de noite.
João permanece fiel a Deus e o deseja, o busca porque é convicto de sua presença. Ele SABE que mesmo na escuridão pode confiar que a sua fonte está presente e que ele pode dela beber e saciar-se abundantemente. É o que lhe dá sustento na caminhada. III – A Pós-Modernidade e a “privatização do divino” A busca do transcendente excessivamente valorizada na Pós-Modernidade é uma busca em muitos aspectos egoísta, reflexo da atitude de um mundo onde o individualismo floresce vicejante no campo da competição pelo poder, pela riqueza e pelo status. Busca-se o privado, aquilo que satisfaz o indivíduo sem levar em conta o coletivo, a comunidade. “A individuação de Deus na experiência privada da vivência da fé conduz ao desconhecimento do outro, porque satisfaz por si mesma... Uma atitude coerente com a busca da felicidade pessoal, recusa de sacrifícios pelos outros, liberação das imposições tradicionais, hedonismo no plano afetivo... A complexidade e diversificação deste espaço multifacetado para a vivência da fé possibilita que o indivíduo, nas suas reações, tenha como centro a si mesmo, caracterizando o individualismo”. (MOL, Joaquim Giovanni. In: Individualismo cultural e vivência da fé – dissertação de mestrado). “O excessivo sucesso do esoterismo, da parapsicologia, mentalização psicológica, Yoga, para chegar à paz interior não é outra coisa que a tentativa de substituir a Deus. Estes meios, todavia, não são capazes de reunificar o homem, de alcançar-lhe a harmonia na qual foi criado e para a qual tende após a Redenção. O menor dos danos que essas pseudo-doutrinas podem gerar é a desembocadura em um naturalismo puro, que não liberta de nossas escravidões e limitações. O homem novo não é construído em cima de sua própria natureza, em cima de seu próprio barro. Ele nasce da postura de permanecer como objeto a ser remido por Deus” (Patrício Sciadini – OCD). IV – João da Cruz: abertura a Deus que não exclui o próximo São João da Cruz não se fecha em si mesmo na sua experiência de Deus. A sua é uma experiência relacional com Deus que se prolonga no outro. A sua não é uma busca egoísta de Deus para aprisioná-lo em si mesmo. Ao contrário, ele se torna mistagogo. Nos ajuda a fazermos também nós o nosso encontro com o Deus verdadeiro. Ele é uma pessoa feliz, realizada, que sente a necessidade de comunicar sua experiência, deixar que ela transborde para que outros possam se beneficiar. O Deus ao qual João nos conduz é um Deus próximo. Está tão perto de nós, que habita dentro de nós e nos leva para dentro de si. Contudo, não nos aprisiona, nem nos escraviza, mas nos propõe uma relação de liberdade. Precisamos descer ao fundo de nós mesmos e encontrá-lo. Ele está escondido em nosso ser. Essa busca do divino no mundo atual, mostra justamente esta realidade: O Amado atrai como um ímã, quer ser buscado e quer ser encontrado. Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido? Como o cervo, fugiste, Havendo-me ferido; Saí, por ti clamando, e eras já ido. Pastores que subirdes Além, pelas malhadas, ao Outeiro, Se, por ventura virdes Aquele a quem mais quero, Dizei-lhe que adoeço, peno e morro. Ó bosques e espessuras, Plantados pela mão de meu Amado. Ó prado de verduras, De flores esmaltado, Dizei-me se por vós ele há passado. Extingue os meus anseios Porque ninguém os pode desfazer E vejam-te meus olhos Pois deles és a luz, E para ti somente os quero ter. (Cântico Espiritual – Granada 1584 – 1586) João orienta a busca do Deus que ele denomina como AMADO. Porém, é preciso silenciar todo em nós para iniciarmos a busca encontrarmos Deus. Deus sabe que o coração do ser humano tem sede de infinito, tem sede de beber da fonte na qual tem sua origem. O coração humano vive na procura nostálgica de sua origem e estará “inquieto e insatisfeito enquanto não repousar em Deus”. O homem e a mulher de hoje procuram Deus e muitas vezes tem a ilusão de o terem encontrado em realidades que não são, de fato orientadas para o DESEJADO, o AMADO, como o chama São João. São João da Cruz pode orientar este homem e esta mulher inquietos na busca de Deus. Às vezes nos é transmitida uma falsa imagem da figura deste santo, ao ponto de nos parecer inacessível e inatingível. Mas, ao contrário, São João da Cruz é uma pessoa muito próxima de nós. Viveu seu cotidiano buscando, com toda a sua energia a Deus. Também ele experimentou e sentiu o “silêncio de Deus” e dos homens. O segredo dele está no fato de ter claro o que realmente queria. Era convicto do amor, da bondade e da presença de Deus. Era convicto de que Deus é fiel e nele se pode confiar e esperar, mesmo de noite .