A caminho de Emaús: Presença do Senhor na Palavra e na Eucaristia Uma leitura de Lc 24,13-35
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípulas de Jesus Eucarístico
Estar em Jerusalém já não faz mais sentido algum. É como se o chão lhes tivesse sido retirado de sob os pés. Que rumo dar às suas vidas a partir de então? – O Senhor se foi, não está mais conosco. Retornemos à nossa vida anterior. Que sentido há em ficar alimentando esperanças vãs? (v. 24b). Talvez fosse este o pensamento daqueles homens. Talvez tenha sido esta a grande questão que se passava na cabeça dos integrantes da Comunidade concreta á qual Lucas se dirige. E agora, o que fazer? O Senhor se foi. Sua feição sombria (v. 17) traduzia a tenebrosa noite em que suas almas estavam mergulhadas. Noite esta semelhante àquela descrita por São João da Cruz, na qual Deus parece ser um “ eterno ausente ”. II – Enquanto conversavam... posse a caminhar com eles... Jesus está aí, presente na caminhada da Comunidade, assim como na caminhada daqueles dois discípulos a caminho de Emaús. O fato de não estar fisicamente presente não diminui em nada a realidade do seu estar e do seu atuar no meio dos seus. Embora os discípulos não o reconhecessem (v. 16), ele estava lá, participando, ouvindo atentamente sobre suas expectativas, suas angústias e dores. Que necessidade de falar tinham aqueles homens! Necessidade de partilhar sentimentos, a experiência pessoal e comunitária da “ausência” do Senhor. Contudo, não imaginavam que aquela ausência era apenas aparente. No aqui da existência humana, permeada por suas ambivalências, contradições, altos e baixos, muitas vezes a pessoa se encontra nesta sensação de fracasso e solidão: “... esperávamos... mas...”. Clama a um Deus que, ao invés de lhe responder prontamente com atitudes concretas e imediatas, lhes solicita a fé e a confiança. Tal fé, porém, não é sinônimo de uma atitude passiva simplesmente. É uma fé ativa, que procura nos acontecimentos da história a atuação de Deus em favor dos homens. É por este motivo que Jesus repreende aqueles dois: “ insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram ” (v. 25). III – “... E começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a Ele dizia respeito” A Palavra é um dos lugares por excelência onde o Senhor se maifesta. O autor do Deuteronômio incita o povo de Israel com um grande grito de alerta: “ Shemá, Israel ”! (Dt 5,1) – Ouve, Israel! O Senhor comunica-se a si mesmo por meio de sua Palavra. É o próprio Jesus que irá fazer com que aqueles dois discípulos percebam tudo o que dele está escrito na Palavra que o Pai dirigiu a seu povo por meio dos Profetas. Por meio da Palavra Jesus faz memória, isto é, torna viva e presente nos corações dos discípulos as promessas de salvação de Deus, que é fiel em seu cumprimento (v. 32). O tempo da Promessa finalmente se cumpriu. É Ele o Messias prometido e enviado por Deus para realizar a libertação. Porém, seu messianismo é diferente: deveria passar por uma estrada bem diferente daquela idealizada por tantos grupos – seu caminho é o do Justo Perseguido, cujo fracasso foi interpretado como abandono por parte de Deus; mas aquele aparente abandono era caminho de salvação. A morte de Jesus não foi a última palavra. O Deus fiel, o Deus da Promessa o “ ressuscitou, libertando-o das angústias do Hades ” (At 2,24). É este o Querigma das primeiras comunidades (At 13,22-30). Onde está Jesus Cristo hoje? Lucas responde à pergunta orientando a comunidade e a cada um de nós a perceber a presença do Senhor na Palavra, por meio de uma original catequese de Jesus que toca o coração daqueles homens “ Não ardia o nosso coração enquanto ele falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras ”? (v. 32). IV – “Permanece conosco, Senhor, pois a tarde cai e o dia já declina” Os discípulos estão ali, no caminho com Jesus . Embora se encontrem numa situação de noite (o dia já declina), não precisam temer, pois Jesus está presente, mesmo que seus olhos estejam impossibilitados de reconhecê-lo. Com este versículo Lucas nos prepara a perceber uma outra forma de presença do Senhor na Comunidade: a Eucaristia . A própria insistência dos discípulos para com “aquele homem” que caminhava com eles retrata sua atitude de acolhida e partilha – condições estas essenciais para que a Eucaristia aconteça no mundo e aí se descubra a presença do Senhor. No episódio da multiplicação dos pães narrado por Lucas (Lc 9,10-17), encontramos uma situação semelhante a esta: “ O dia começava a declinar ” (v. 12). Porém, não são os discípulos que tomam a iniciativa de partilhar o que possuem com a multidão, e sim Jesus: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Estes querem despedir a multidão o quanto antes; ainda não haviam compreendido a lição de repartir. Como em Marcos, o tema da incompreensão dos discípulos também aparece aqui em Lucas, ainda que com menor intensidade e frequência (Lc 18,34; 8,9). Finalmente Lucas conclui dizendo: “ Todos ficaram saciados e foi recolhido o que sobrou dos pedaços ”. Toda aquela multidão poderia unir-se a Maria em seu Magnificat e cantar que o Senhor “ cumula de bens os famintos ” (Lc 1,53). Retornando ao nosso relato primeiro, na entrada do povoado de Emaús, Jesus dá a entender que vai mais adiante (v. 28) e os discípulos o detêm. Talvez aquela palavra que lhes aqueceu o coração os fez recordar a grande lição ensinada um dia pelo Mestre. V – “... Tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e distribuiu-o a eles...” Jesus realiza o gesto tantas vezes repetido entre os seus discípulos. Aquele mesmo gesto realizado na Ceio da despedida (Lc 22,19), o qual antecipava sua entrega total ao Pai como fidelidade a uma Missão assumida até às últimas consequências: a entrega e partilha da própria vida. A EUCARISTIA é PÃO PARTIDO, REPARTIDO e DISTRIBUÍDO . Partido em quantos pedaços forem necessários. É banquete comprometido com a vida, gerador e multiplicador de vida. Embora pareça contraditório, podemos afirmar que a Eucaristia possui uma dimensão MARTIRIAL . O compromisso assumido com a vida é tão intenso e sério que, em favor da vida, se oferece a própria vida; ou seja, aquilo que há de maior valor para nós (Lc 22,20). Martírio não é deixar-se matar passivamente, não é masoquismo. O mártir não é aquele que faz parte de uma categoria especial de cristãos, nem constitui uma elite. A vocação a ser cristão é uma vocação essencialmente martirial para que o compromisso com Cristo e com o Reino não fique ameaçado. Colocar-se no cainho com Jesus, celebrando entre nós e com Ele a Eucaristia, exige de nós um compromisso sério com a promoção da vida ameaçada, diminuída, aniquilada, rebaixada. Falta-nos estabelecer uma coerência radical entre fé e vida. O cristão que celebra a Eucaristia e é conivente com a injustiça, não é verdadeiro discípulo de Jesus. Ao contrário, quem faz sua opção fundamental por Jesus, está pronto a viver a radicalidade da Eucaristia. Na resposta de volta a Deus, o homem se compromete com o OUTRO nos outros e com os outros no OUTRO: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós”. O convívio com o Senhor deve levar a atitudes concretas de partilha (Lc 9,8-10). Jesus inaugurou o Reino, que é “ SALVAÇÃO ACONTECENDO ”. Onde ele está presente a salvação e a libertação acontecem – a Eucaristia já é sinal de libertação, pois é presença do Ressuscitado, é sinal do Reino que já está instaurado no mundo em tensão: já foi inaugurado, mas ainda não se realizou plenamente. O fato de já ser parte da história e de ir se construindo por meio dela, faz com que o Reino assuma práticas concretas, encarnadas de libertação e salvação, pois Deus liberta o homem das amarras concretas de sua existência (Lc 4,18.19;7,22). Quando Jesus senta à mesa com os pecadores, cura os doentes, faz os cegos recuperarem a vista, os surdos ouvirem, estes são sinais sensíveis de que o Reino já está presente, acontecendo. Tais sinais o apontam como realidade já presente. Portanto, a Eucaristia não é apenas “ VIDA PARA A IGREJA ” (Lema do 13º Congresso Eucarístico Nacional), mas o é também para o Reino. É vida para o Reino . Mais. O Banquete do Reino é UNIVERSAL : a Eucaristia é para todos (Lc 14,15-34). A comunidade lucana pode e deve se alegrar: Jesus traza universalidade do Reino, que não é destinado apenas aos judeus: “ Não há mais judeu, nem grego, nem escravo nem livre, não há homem ou mulher ” (Gal 3,28). VI – “Então seus olhos se abriram e o reconheceram...” Até aqui, os discípulos percorreram um longo itinerário. Este é o mesmo percurso de todos os tempos, de todas as épocas. O importante é colocar-se no caminho COM JESUS . Nas noites pelas quais passa a caminhada, o importante é perseveram, permanecendo vigilantes (Lc 21,36), prosseguindo com a certeza de que o Senhor está presente. Importa descobrir as mais variadas maneiras através das quais ele se faz presente. O Ressuscitado não está mais limitado às categorias de tempo e espaço. Ele se faz presente na PALAVRA , no PRÓXIMO , na PARTILHA , na COMUNIDADE , na EUCARISTIA . Basta apenas abrir os olhos e reconhecê-lo. VII – Concluindo... * Tornar-se Eucaristia é continuar a missão libertadora de Jesus, vivendo os valores eucarísticos da solidariedade e da justiça. * A cada Eucaristia que celebramos reassumimos o nosso compromisso de promotores da vida. A Eucaristia nos pede coerência entre fé e vida. * A vivência da Eucaristia nos orienta a transformar não apenas a nossa vida, mas a sociedade e o mundo. Viver a Eucaristia em sua plenitude é fazer o Reino acontecer, ainda que em tensão. * A Eucaristia é a presença do Senhor Ressuscitado no meio de nós. Quais os gestos concretos de partilha, acolhida, serviço, que confirmam e atualizam a presença do Ressuscitado em nossas comunidades?
Lucas coloca como pano de fundo a grande pergunta: “ Onde está Jesus Cristo hoje? ” Com isto, ele quer apontar à Comunidade à qual se dirige onde o Senhor Ressuscitado se encontra: ele não está distante, nas alturas, deixando que a comunidade caminhe sozinha. Ao contrário, está bem perto, mais próximo a nós do que podemos imaginar, encontrando, inclusive, diversas maneiras de se fazer presente. É esta presença que o Capítulo 24 retrata de maneira brilhante e singular, rica de vivacidade. O Senhor está no meio de nós , fortemente presente no nosso caminhar, na PALAVRA e na EUCARISTIA . I – Desilusão e sofrimento: O Senhor se foi Os dois discípulos, numa atitude de profunda desilusão, voltam de Jerusalém, a cidade que foi o palco dos últimos acontecimentos relacionados a Jesus de Nazaré. Retornam decepcionados, relembrando tudo o que havia acontecido (v. 14). Aquele homem passou por suas vidas acendendo utopias, esperanças, desejos de libertação, igualdade (v. 21) e de repente sai de suas vidas da mesma maneira que entrou: fugazmente.