Quaresma e espiritualidade do silêncio
Ir. Andréa dos Santos Lourenço
“Feliz quem sabe escutar a música do silêncio atento e perscrutante, dessa voz que, sem palavras torna perto o som distante”. Fernando pessoa
A nossa cultura é certamente rica de muitos valores. A Pós-Modernidade descortina um universo de valores e possibilidades à pessoa humana. Mas, como toda realidade humana de todos os tempos, há alguns limites que gritam por superação e integração. Nossa sociedade de consumo nos oferece uma verdadeira “ overdose ” de “produtos”, fazendo-nos acreditar que tudo nos é necessário: nós, muitas vezes, nos “ empanturramos ” com uma multiplicidade de realidades in geridas e mal di geridas: informações, tecnologias, cultura, moda, conhecimento, relação, trabalho, diversão, alimentação, religião, etc... Tudo, em quantidade excedente, vai se tornando cada vez mais necessário à nossa vida. E vamos assumindo também aquelas necessidades que nos são desnecessárias . Tais necessidades nos interpelam e nos oferecem uma variedade de apelos o tempo todo, assumindo um caráter de essencialidade em nossa vida. E está constituído um universo ruidoso. E, paradoxalmente, em um contexto onde tudo é essencial, nos vemos carentes de essencialidade . Passamos a ser carentes de carência, pois ao mesmo tempo que temos tudo, corremos o risco de nos vermos sem nada, no vazio e na solidão da companhia da satisfação de nossas necessidades. Acredito que neste contexto existencial, o tema do silêncio necessita ser resgatado. O silêncio, aqui, surge como antídoto capaz de “ desintoxicar ” das “ overdoses ” às quais nos submetemos ou somos submetidos. A este respeito, nos fala Rubem Alves: “A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito... ouvir atentamente o silêncio nos interstícios das palavras, a fim de ouvir o que não foi falado”. E parafraseando Rubem Alves, poderíamos dizer que é necessário ouvir o silêncio não apenas nos interstícios das palavras, mas também nos das notícias, dos barulhos produzidos ou consumidos por nós, do fazer desenfreado... Encontrar o silêncio nas PAUSAS que se fazem necessárias para que a essência seja resgatada, reencontrada. Anselm Grün no seu livro: “As exigências do silêncio”, insiste repetidas vezes que o silêncio é um caminho para o auto-encontro. De fato, muitas vezes, temos medo de nos encontrar com as nossas realidades, sobretudo aquelas que são as mais essenciais, que nos dizem mais profundamente da nossa verdade. No interior de cada um de nós habitam luzes e sombras, cordeiros e feras, pombas e serpentes. Nem sempre somos reconciliados com a realidade de nossos limites. Assim sendo, utilizamos da fuga como recurso de defesa.
Silêncio não quer dizer apenas deixar de falar, mas significa que eu desisto das possibilidades de fuga e que me suporto assim como eu sou. Não renuncio apenas a falar, mas também a todas as ocupações que me desviam de mim mesmo. Quem quer que tente isto há de descobrir que de início não é nada agradável. Aparecem idéias e sentimentos de toda espécie, emoções e estados de ânimo, medos e relutâncias. Vêm à tona os desejos e as necessidades contidas, cresce a raiva reprimida (...) Muitas vezes os primeiros momentos de silêncio nos revelam nossa confusão interior, o caos de nossos pensamentos e desejos.
A reconciliação conosco mesmos passa pela capacidade de não termos medo de nos aventurarmos na “mata escura”, em busca de nós mesmos, como nos diz Milton Nascimento na sua música “Caçador de mim”. É no silêncio da “noite escura” – como nos indica São João da Cruz em seu itinerário espiritual – que podemos encontrar com as realidades mais verdadeiras de nós mesmos.
Em uma noite escura De amor em vivas ânsias inflamada, Oh! Ditosa ventura! Saí sem ser notada, ‘stando já minh’alma sossegada. Em noite tão ditosa, E num segredo em que ninguém me via, Nem eu olhava coisa alguma, sem outra luz nem guia Além da que no coração me ardia. (...)
É a noite que nos possibilita experimentar uma “ solidão povoada, sonora ”. Um outro aspecto do silêncio é que ele nos torna capazes de nos abrirmos à dimensão da contemplação. Neste sentido, o silêncio nos faz tocar naquelas realidades que estão para “ mais além ” da palavra. É a outra margem do que foi dito. “ Não é semelhante ao mutismo do não-dizer, mas ao calar eloqüente do celebrar, com a abertura respeitosa à Transcendência ”. O silêncio é, pois, um calar grávido daquilo que o transcende. “ Maria guardava todos esses fatos em seu coração ” (Lc 2,51). É uma escuta ativa . A contemplação é a capacidade de intus legere = ler a partir de dentro, deixando-se envolver por um silêncio fecundo , onde não se quer ornamentar a realidade com adornos que não lhe pertencem, correndo o risco de falseá-la com máscaras que a desfiguram e escondem. Mas, ao invés, esta dimensão do silêncio quer-nos levar de modo transparente à verdade – sobretudo à verdade de nós mesmos – onde nos encontraremos co a essencialidade. Deixando-se os acessórios, quer-se chegar á realidade assim como ela é. É esta a capacidade contemplativa que habita no coração dos místicos, dos poetas e dos artistas. E, finalmente, a partir deste silêncio aberto à transcendência, abre-se uma brecha fundamental: possibilidade de encontro com O TRANSCENDENTE: Aquele que não se deixa apreender, aprisionar por nenhuma palavra, imagem ou tagarelice. O advento de Deus na nossa vida se dá através da dinâmica do silêncio. O Deus Bíblico é um Deus silencioso, é presença suave, silenciosa, respeitosa (1Rs 19,11-13). Seu silêncio é espaço para a liberdade da pessoa humana, para que esta não o busque por dever ou obrigação, mas por desejo livre. Que neste tempo quaresmal, a pedagogia do silêncio nos leve a um encontro com a verdade de Deus e a nossa, e nos possibilite um verdadeiro confronto, ajudando-nos a perceber os ruídos dos quais precisamos nos desvestir a fim de ficar com aquilo que é mais importante, essencial e condizente com os valores cristãos nos quais acreditamos.
No tempo litúrgico da Quaresma, a Igreja nos convida a uma revisão de vida que nos possibilite uma mudança (CONVERSÃO) daquelas realidades que precisam receber uma nova orientação em nossa vida, a fim de que esta esteja mais de acordo com o projeto e a proposta de Jesus, uma vez que, como cristãos, nos comprometemos com seu seguimento. Neste tempo em que somos convidados a fazer uma retrospectiva de nossa vida, o cultivo do silêncio vem nos possibilitar escutar os apelos, as interpelações de Deus que nos fala através de múltiplos meios: a Palavra, a Liturgia Cotidiana, a vivência dos Sacramentos, sobretudo da Eucaristia e da Reconciliação, os exercícios e as práticas de piedade, os acontecimentos do dia-a-dia, os encontros e desencontros com as pessoas... Cultiva uma espiritualidade do silencio, significa adotar o silêncio como uma atitude. Mas não um silêncio estéril, sinônimo de ausência de palavras ou ruídos simplesmente, como nos define o dicionário, mas um silêncio frutuoso, fecundo, grávido de conteúdo. Este sim, nos proporcionará um encontro com Deus, conosco mesmos, com as pessoas.
SILÊNCIO : Do latim silentiu . Estado de quem se cala. Privação de falar. Interrupção de correspondência epistolar: “ Passou um ano. Uma manhã, depois dum grande silêncio de Basílio, recebeu da Bahia uma longa carta ”. Interrupção de ruído; calada. Sossego, calma, paz. (Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio).