Ano novo... Vida nova! O que há de novo? De um dia para o outro há como uma realidade transformar-se de velha em nova? Que magia é esta que faz com que possamos afirmar efetivamente que estamos em um ano novo? O que existe para além da cronológica contagem dos dias, e da automática virada da página do calendário? Ano novo... Vida Nova!
Ano Novo... Vida Nova!
Ir. Andréa dos Santos Lourenço Discípula de Jesus Eucarístico
Se considerássemos bem, não precisaríamos aguardar apenas o último segundo do dia 31 de dezembro para nos depararmos com a novidade do tempo. O segundo futuro é sempre novo, pois, como diz o filósofo: não podemos dizer que uma pessoa possa passar pelo mesmo rio duas vezes, pois na segunda vez, o rio pelo qual passou ainda que há poucos segundos atrás, este já não existirá mais, pois novas águas o povoam no segundo presente. E ainda mais. É impossível que a mesma pessoa passe duas vezes pelo mesmo rio, pois também nela já terá ocorrido inumeráveis mudanças, desde as físicas e biológicas que tem uma dimensão quantitativa e mensurável até aquelas que não podem ser observadas a olho nu por pertencerem ao âmbito existencial, o da interioridade, daquelas realidades que só poderemos enxergar bem “com o coração”, ao nível do que é essencial – Sábia raposa, aquela!
Nosso Deus é sempre novidade. Santo Agostinho a ele se refere como “ Beleza tão antiga e sempre nova ”. E nós, pessoas humanas, uma vez criadas à imagem e semelhança de Deus, participamos, ainda que de maneira limitada e imperfeita, da sua novidade. Somos convidados a viver renovando-nos, a cada instante na novidade do seu Espírito. É Ele mesmo que fala pela boca do profeta Isaías: “ Eis que faço novas todas as coisas ”. E nós, mergulhados nesta atmosfera da novidade divina, saibamos a cada dia viver a vida de forma criativa e nova, fazendo com que jorre da nossa interioridade para as pessoas com as quais convivemos a nossa parcela de colaboração para transformar com criatividade o mundo no qual vivemos. A novidade que jorra de dentro de cada um de nós tem um potencial criador que nos possibilita ser parceiros e parceiras de Deus na obra de construção do seu Reino aqui na terra. Deus nos confere, assim, uma dignidade grandiosa: a de sermos seus co- laboradores . Podemos utilizar do nosso potencial de criatividade para trabalharmos junto a ele e continuar criando, expandindo seu reino sobre a terra. Façamos deste novo ano de 2010 o início de um novo tempo. O cronológico tem um potencial apenas cumulativo: vamos acumulando ano sobre ano, dia sobre dia, minuto sobre minuto. Saibamos nós transcender ao puramente cronológico, ao inevitável suceder do tempo. Tenhamos a capacidade de juntos, dar a cada minuto de nossas vidas um sabor de novidade-criativa-colocada-a-serviço-da-construção-do-Reino.
A dimensão cronológica precisará ser completada e enriquecida com outras dimensões, caso contrário, se chegará a uma velhice estéril. Ao invés, temos a necessidade de revestir cronos de kairós, de essencialidade, de significado, de transcendência . Reaprendamos a olhar a vida, as pessoas, as coisas, os acontecimentos com o olhar de criança – segundo o convite de Rubem Alves. Deixemos que ele mesmo nos interpele: “ São as crianças que sabem ver as coisas, porque elas as vêem sempre pela primeira vez com espanto, com assombro de que elas sejam do jeito que são. Os adultos, de tanto vê-las, já não as vêem mais. As coisas – as mais maravilhosas – ficam banais. Ser adulto é ser cego ”. Reaprendamos, pois, a enxergar olhos novos.
Talvez seja por isso que Jesus diz no Evangelho que “quem não se tornar como criança não entrará no Reino do Céu”. Não porque o Reino não nos seja oferecido ou nos seja negado. Mas porque, como sendo oferta, o Reino supõe ser acolhido a partir de uma resposta livre. É possível que passemos pelas realidades do Reino sem reconhecê-las, sem enxergá-las como tais, se não aprendermos a desenvolver um olhar que seja capaz de enxergar, perceber. E assim, o Reino passa por nós; e cegos, estaremos impossibilitados de reconhecê-lo! Permitamos que, como mulheres e homens novos, a novidade do Espírito de Deus nos encharque por completo, transformando as nossas ações. Que o nosso olhar readquira brilho e nos possibilite passar pela vida com encantamento e graciosidade, encantando e agraciando.
Ao desejarmos a nossos familiares e amigos na noite do dia 31 de dezembro um “Feliz Ano Novo”, que esta fala seja expressão de uma convicção mais profunda e significativa. Saibamos deixar de lado a mulher e o homem velhos – como nos convida o Apóstolo Paulo – e permitamos que cresça o ser humano novo, imagem do Homem Novo Jesus Cristo. A todos um FELIZ ANO NOVO! A cada ano... a cada instante! Um FELIZ TEMPO NOVO!