Espiritualidade do Advento e do Natal
É Advento! É Natal! É tempo de chegada! Deus vem! Transformemos o nosso desejo para que ele fique do tamanho do desejo de Deus e digamos: Maranatha! Vem, Senhor! Assumamos também nós a dinâmica do movimento, saiamos da nossa cômoda inércia e caminhemos ao encontro do Deus que vem sempre de encontro à nossa realidade. Dizer a Deus: “Vem”! não significa lembrar-lhe de uma realidade da qual ele se tenha esquecido, mas, ao invés quer expressar a nossa disponibilidade em acolhê-lo entre nós. É tempo de revermos a qualidade da nossa acolhida a tanta oferta de salvação derramada sobre nós. É tempo de desembaçar os nossos sentidos e aguçar a nossa sensibilidade para vibrarmos com o anúncio do anjo: “... eu venho anunciar-vos uma boa nova, que será uma alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11s). Com a percepção em alerta, saibamos nós acolher com entusiasmo e brilho no olhar o hoje salvífico de Deus que se atualiza na cotidianidade do nosso existir.
Não se contenta em circular pela periferia da nossa existência e reveste-se de carne humana, mergulhando em nossa história e tornando-se um dos nossos. O Deus que nos havia criado à sua imagem e semelhança, desde então, assume as categorias cronológicas, entra no tempo e no espaço e “se cria” assumindo a nossa imagem humana, tornando-se nosso semelhante, compartilhando da beleza e da fragilidade do nosso ser. É a inversão de Deus! A encarnação marca de tal forma a nossa história que confere uma dignidade enorme à nossa condição de pessoa humana. Assumindo ser como nós, o Verbo de Deus nos confirma que é bom ser gente! Jesus de Nazaré nos ensina a não andarmos de cabeça baixa com vergonha da nossa humanidade. Ele mesmo vai à nossa frente, carregando a nossa humanidade diante de nós como um grande pedagogo do ser, desvenda-nos os segredos, revelando-nos nossas riquezas e a belezas até então desconhecidas e por isso mesmo, desvalorizadas.
A celebração litúrgica do dia 25 de dezembro, não reduz a uma data a vinda de Deus entre nós; é, ao invés, uma síntese simbólica de todas as infinitas maneiras que, em sua criatividade amorosa Deus tem encontrado para vir ao nosso encontro ao longo da História da Salvação. 25 de Dezembro é o dia-símbolo da plenitude: “Quando chegou a plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher...” (Gl 4). É Natal! É tempo de encontro! Deus tem um encontro marcado conosco em meio ao nosso acampamento. Ele já arma a sua tenda, a sua barraca entre as nossas: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A nossa humanidade torna-se o lugar do encontro, onde Deus faz-se plenamente Emanu-El, Deus-Conosco, Deus-por-nós, Deus-para-nós, Deus-em-nós, num convite insistente para que também nós sejamos com-Ele, n-Ele.
Bebamos nas fontes da nossa fé a fim de que, revigorados estejamos mais pré-dispostos a traduzir em vida o conteúdo riquíssimo das verdades nas quais acreditamos. Elevemos o nosso coração a Deus num hino de louvor e de ação de graças pelo imenso amor que tem por nós e por fazer sempre questão de derramar sobre nós o seu bem-querer e o seu cuidado. Ao Deus que vem, digamos: Vem! E que todos vivamos um abençoado advento que nos conduza a um rico e abençoado Natal. Ir. Andréa dos Santos Lourenço Irmãs Discípulas de Jesus Eucarístico andreasanlou@hotmail.com
“Procurai o Senhor, já que ele se faz encontrar, chamai-o, pois ele está próximo” Is 55,6
Nosso Deus não é um Deus que se esconde, mas é, ao contrário, um Deus que se revela – é o Deus do encontro, da relação, da proximidade e da presença; é um Deus que se faz encontrar. Percorrendo as páginas do Primeiro e do Segundo Testamento, deparamo-nos com um Deus em contínuo movimento de saída de si mesmo, rumo ao encontro da pessoa humana na busca incessante de relação, de intimidade, de compromisso, de aliança. O Deus que se revela a nós como Trindade é essencialmente expansão amorosa e criativa. Amor é essencialmente dom de si, é auto-comunicação gratuita e generosa. E é justamente este o núcleo da espiritualidade destes dois tempos litúrgicos fortes que compõem uma unidade: ADVENTO e NATAL. Deus, motivado por um desejo infinito de comunhão, assume a nossa realidade a partir de dentro.
Os sábios judeus utilizam uma palavra toda particular para falar de Deus como Presença entre nós: “Shechinàh”. Nós, todos os dias, na celebração eucarística aclamamos: “Ele está no meio de nós”! Nós acreditamos mesmo na verdade desta expressão ou ela já perdeu entre nós sua força e seu significado mais profundo? É Natal! É tempo de escancararmos a nossa consciência, a nossa interioridade, o nosso desejo mais profundo para acolhermos a “Shechinà” – a Presença do Deus-Presente que vem constantemente a nós como GRAÇA, como DOM. Portanto, neste tempo fecundo que vem encharcar o nosso espírito, alimentemo-nos do variadíssimo cardápio que a liturgia, através do pão da Palavra e dos diversos textos litúrgicos coloca à nossa disposição.