Neste mês de setembro somos convidados pela Igreja a refletir sobre a realidade da Palavra de Deus em nossa vida. A Bíblia é a Palavra de Deus comunicada a nós ao longo da história. É como uma carta que o amado escreve à sua amada comunicando-lhe notícias de amor, bem-querer. De fato, uma das exigências do amor é a comunicação. Esta, faz parte da própria natureza do amor.
Bíblia: A Revelação de um Deus Amor
É justamente este o contexto real no qual se pode compreender o amor de Deus pela pessoa humana e a sua revelação no decorrer da história. Deus, desde os primórdios da Revelação tem-se mostrado como alguém que ama profundamente o ser humano, comunicando tal amor com gestos concretos e com palavras. Nos livros da Bíblia foi-nos registrado o conteúdo desta revelação: do gênesis ao apocalipse é-nos dito de diversificadas maneiras o quanto Deus nos ama e de que forma se entrega a nós na relação. João, na sua carta dá a mais bela e mais completa definição que alguém poderia dar de Deus: “Deus é amor”!
No livro do gênesis, a imagem que expressa com maior beleza o desejo de proximidade e de auto-comunicação de Deus, a meu ver, encontra-se no segundo relato da criação: “O Senhor Deus modelou o homem com o pó apanhado do solo. Ele insuflou nas suas narinas o hálito da vida e o homem se tornou um ser vivo” (Gn 2,7ss). Vemos a imagem de um Deus-Oleiro, o qual não exita em sujar-se de barro, tocando a nossa fragilidade com mãos ternas e delicadas, moldando-nos à sua imagem e semelhança (Gn 1,26) e, com a mesma delicadeza, depositando-nos em um habitat cuidadosamente pensado e confeccionado por ele mesmo, tendo presente a minuciosidade dos detalhes (Gn 1,1 – 2,3.8). As páginas que seguem em cada livro do Primeiro Testamento não são diferentes. Percebemos constantemente um Deus presente e próximo, que acompanha seu povo “com asas de águia”, pelos caminhos da libertação: um Deus próximo e providente (Dt 8,1-20). De fato, o próprio povo irá reconhecer: “Com efeito, que grande nação tem deuses que tanto se aproximam dela quanto o Senhor, nosso Deus o faz toda vez que o invocamos?” (Dt 4,7). E o profeta Jeremias completará: “Vós me procurareis e me encontrareis, porque me procurareis de todo o coração; eu me deixarei encontrar por vós” (Jr 29,13s). E com o salmo 145 podemos exclamar com toda a convicção: “Javé está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam sinceramente” (Sl 145,18). Neste processo de auto-comunicação, Deus foi-se revelando pacientemente, constituindo aqueles a quem criou como seu povo ao longo da história. Não ficou satisfeito em que apenas fôssemos criaturas suas, mas constituiu-nos como seu povo-muito-amado (Os 2,3.25). Este mesmo povo, porém, nem sempre soube estar atento à sua voz que lhe indicava a estrada e apontava o caminho! Quantas vezes o povo se afastou, decidiu seguir por outros caminhos, orientando-se por outras vozes, aderindo a outras propostas... Mas Deus manteve-se sempre fiel a seu amor, nunca abandonando nem desistindo da “obra de suas mãos”! (Sl 138). Inúmeras vezes Deus enviou profetas a fim de falarem em seu nome, como mensageiros de sua palavra, comunicando-se por intermédio deles. Tantas outras vezes comunicou-se por meio de representantes legitimamente escolhidos do meio do povo, constituídos por ele para fazer conhecer sua verdade. Estes algumas vezes eram acolhidos, e outras rejeitados... e com eles era rejeitada a oferta de salvação, o projeto de Deus. Enfim, tendo de forma criativa inventado inúmeras maneiras de se comunicar com seu povo, na plenitude dos tempos (Gal 4), Deus chegou ao grau máximo de oferta de si: resolveu, ele mesmo, em pessoa, pisar a nossa terra e tocar com as próprias mãos, a partir de dentro, a nossa história: na pessoa de seu Filho, o Verbo, a sua Palavra criadora, assumiu a condição humana, e toda a realidade que a constitui e envolve. Jesus comunicou-nos plenamente o amor paterno-materno de Deus, ensinando-nos a acolhê-lo a partir de nossa humanidade:
Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos Profetas, Deus “ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2). Com efeito, Ele enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de Deus (cf. Jo 1,1-18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como “homem aos homens”, “profere as palavras de Deus” e consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou. (Dei Verbum 164)
Jesus de Nazaré, não apenas revela Deus à pessoa humana, mas revela à própria pessoa aquilo que, de fato ela é e é chamada a ser para tornar-se plenamente humana e divina, segundo o projeto original de Deus:
Na realidade, o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro homem era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação (...) “Imagem de Deus invisível” (Col 1,15), Ele é o homem perfeito, que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Como a natureza humana foi n'Ele assumida, não aniquilada, por isso mesmo também foi em nós elevada a uma dignidade sublime. Com efeito, por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo homem. (Gaudium et Spes 264-265)
Assim, somos chamadas a olhar para a pessoa de Jesus e acolher o Deus que se comunica e se revela, acolhendo a sua proximidade e o seu projeto de salvação. Não é intenção de Deus ficar no oculto, no anonimato. Ele se revela no desejo de ser encontrado por nós, seus filhos e filhas. Mas a sua comunicação a nós é sempre uma proposta respeitosa, sempre à espera de uma acolhida livre de nossa parte. Vamos, então, colocar todos os nossos sentidos à escuta do Deus que se comunica. Aproximemo-nos dos textos do Primeiro Testamento. Aproximemo-nos de Jesus de Nazaré, de tudo o que nos anuncia no Evangelho. Aproximemo-nos dos Sacramentos e, de forma particular da Eucaristia: Memorial da Presença de Jesus em meio a nós, povo de Deus: alimento que nos sustenta na caminhada rumo ao Pai.
Com tantas formas de presença, não temos o direito de dizer que o nosso Deus é um Deus distante. Com certeza, quando assim sentimos, somos nós os ausentes. Então, peçamos a ele a graça da busca desejosa e constante. Que ele motive em nós a sede, a fome, o desejo, a busca, a fim de que possamos caminhar de encontro às suas vindas. Ao Deus que vem, digamos VEM! E corramos ao seu encontro.
Quando se ama, sente-se a necessidade de COMUNICAR(se), COMUNGAR(entrar em comunhão) com a realidade da pessoa amada. Então, o amor supõe RELAÇÃO. E aí, acontece o vai-e-vem do encontro como veículo propiciador da oferta de si e da acolhida do outro.